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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Amazing Grace (Maravilhosa Graça)


"Amazing Grace" é um conhecido hino tradicional protestante, com a letra escrita pelo inglês John Newton, e que foi impresso pela primeira vez no Newton's Olney Hymns (1779). 

Neste primeiro momento somente a letra fora impressa sem partitura musical alguma. Acredita-se que inicialmente o texto era apenas recitado, mas com passar do tempo tornou em música. 

Em seguida foi publicado no hinário da igreja anglicana em Olney na Inglaterra, juntamente com outros hinos do Rev. John Newton e seu colaborador, o poeta William Cooper. 

Hoje, Amazing Grace está entre os hinos mais amados das igrejas evangélicas pelo mundo a fora. Com uma letra que apela ao existencial, e que testemunha da beleza da conversão a Deus, um tema tão precioso na vivência dos evangélicos históricos. 

A música Amazing Grace tem ganhando diversas versões em várias línguas no decorrer do tempo. Foi cantada por grandes ícones da música como Elvis Presley e Areta Franklim. 

Ela reflete a espiritualidade do Rev. John Newton. Uma espiritualidade própria do séc. XVIII, que participa do cotidiano, que se reflete na vida da pessoa em meio ao mundo transformando-o. 

Através da experiência de conversão do Rev. John Newton, e da sua compreensão de espiritualidade, que é própria do séc. XVIII, uma espiritualidade que participa do cotidiano, e que reflete na vida da pessoa em meio ao mundo transformando-o. 

A vivência espiritual do Rev. John Newton teve influência marcante sobre a vida de William Wilberforce, o homem que liderou a campanha abolicionista na Inglaterra, a primeira nação a abolir a escravatura. 


A História de John Newton 

John Newton
Nascido em Londres em 24 de julho de 1725, filho de um comandante da marinha mercante que navegava no Mediterrâneo, perdeu a mãe a menos de duas semanas de seu sétimo aniversário. Aos 11 anos de idade foi para o mar com o pai, aos dezenove foi obrigado a entrar em serviço num navio de guerra (1744), o HMS Harwich, tão horríveis eram as condições que ele desertou, mas foi recapturado e rebaixado a aspirante de marinha comum. 

A seu próprio pedido foi posto em um navio de tráfico de escravos que o levou à costa de Serra Leoa onde se tornou servo de um escravo comerciante o qual abusava dele brutalmente. Já em 1748 foi resgatado por um conhecido de seu pai. 

Por fim John Newton se tornou capitão de seu próprio navio de tráfico de escravos. Sua tripulação o achava um pouco mais que um animal de tão miserável que era. 

Os navios faziam suas viagens da Inglaterra quase vazios até que escorassem na costa africana. Lá os chefes tribais entregavam aos Europeus as "cargas" compostas de homens e mulheres, capturados nas invasões e nas guerras entre tribos. Os compradores selecionavam os espécimes mais finos, e comprava-os em troca de armas, munições, licor, e tecidos. Os cativos seriam trazidos então a bordo e preparados para o "transporte". Eram acorrentados nas plataformas para impedir suicídios. Colocados lado a lado para conservar o espaço, em fileira após a fileira, uma após outra, até que a embarcação estivesse "carregada", normalmente até 600 "unidades" de carga humana. Os escravos eram "carregados" nos navios para a viagem através do Atlântico. Os capitães procuraram fazer uma viagem rápida esperando preservar ao máximo a sua carga, contudo a taxa de mortalidade era alta, normalmente 20% ou mais. Quando um surto de disenteria ou qualquer outra doença ocorria, os doentes eram atirados ao mar. Uma vez chegados ao Novo Mundo, os negros eram negociados por açúcar e melaço que os navios carregavam para Inglaterra no pé final de seu "comércio triangular." John Newton transportou muitas cargas de escravos africanos trazidos à América no século XVIII. 

O Filme: Jornada para Liberdade
John Newton (Albert Finney) - Filme
Numa das suas viagens, o navio enfrentou uma enorme tempestade e afundou-se. Mas foi durante esta tempestade aterradora que Newton teve a experiência da mão providente e graciosa de Deus, quando tudo parecia perdido, em meio ao processo de afundamento de seu navio deixou registrado em seu diário de bordo a exclamação “Senhor, tende piedade de nós”. 

Posteriormente refletindo que tal atitude provava a ele mesmo que cria em Deus, concluiu que deveria trabalhar para Ele. Até os fins de seus dias passou a observar a data de seu novo nascimento, 10 de maio de 1748, o dia de sua "conversão". 

Continuou no tráfico de escravos por mais algum tempo, mas foi tornando-se mais humano, até finalmente deixar o tráfico de escravos. Em seguida, começou a estudar e foi ordenado ministro do Evangelho, onde exerceu seu ministério em Olney por mais de 4 décadas. 

No período de 1760-1770 foi prolífico na composição de hinos, e também escreveu ao longo de sua vida revistas e cartas. 

Pouco antes de morrer, John Newton afirmava que: 

Minha memória quase desapareceu, mas me lembro de duas coisas, que eu sou um grande pecador e que Cristo é um grande salvador”. 

Conforme sua própria orientação, no epitáfio de seu túmulo dizia-se assim: 

John Newton, uma vez um infiel e um libertino, um mercador de escravos na África, foi, pela rica misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, preservado e restaurado, perdoado e nomeado para pregar a fé que ele tinha trabalhado muito para destruir”. 

Fica evidente a influência dos escritos paulinos sobre a leitura espiritual de sua própria história, quando lembramos Gl 1.13 onde o apóstolo Paulo recorda que outrora, no judaísmo, “perseguia a igreja de Deus”. 


Uma análise do hino 

Da letra do hino Amazing Grace podemos ressaltar o estilo de oposições, que muito lembra o tipo de argumentação que o Apóstolo Paulo utilizava com grande maestria em seus escritos. Mas o que fica mais evidente, e seria o caminho mais correto de analisar os hinos de Newton, seria a influência sofrida por ele da hinódia bíblica, sobretudo os salmos. 

Podemos perceber aqui alguns exemplos de paralelismo antitéticos, próprio do saltério, suficientes para delinear a sua força poética e o vigor das imagens bíblicas evocadas e que fazem parte da memória dos cristãos acostumados com a Bíblia. 

Vejamos: 

1) Amazing grace / saved a wretch – sublime graça / salvou um desgraçado 

Aqui encontramos um paralelismo antitético que opõe graça (grace) a desgraçado (wretch). Aqui se releva o paradoxo criado, pois a graça salva o desprovido de graça, o sujeito desgraçado, o infeliz. Apelando dessa forma ao paradoxo, ressalta o alcance infinito da graça. O ensino de Paulo é evocado, na figura do sujeito wretch abunda o pecado, e este é o cerne da (Amazing Grace), pois segundo as palavras paulinas “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rm 5.20). 

2) lost / found - perdido / encontrado 

Encontramos também um paralelismo antitético do campo semântico da perda, de um lado o perdido, de outro o encontrado. De fato a imagem que aqui é evocada é bíblica, trata-se da parábola de Jesus conhecida como Filho Pródigo, quando o pai, se dirigindo ao outro filho diz “este teu irmão estava morto e reviveu, tinha se perdido e foi achado” (Lc 15.32). 

3) was blind / now i see – era cego / agora eu vejo 

Mais uma vez a antítese é posta em paralelo, e outra imagem bíblica é evocada, agora a de um relato de cura, quando alcançado pela graça curadora de Jesus um jovem testemunha “eu era cego, e agora vejo” (Jo 9.25). 

4) taught my heart to fear / and (...) my fears relieved – ensinou meu coração a temer / aliviou meus medos 

O que dizer da beleza do paralelismo antitético que se utiliza da mesma palavra (fear) com dois sentidos diferentes no contexto? Pois a graça que o levou a temer a Deus é a mesma que o aliviou dos temores da vida. Cabe lembrar aqui a experiência de marinheiro náufrago e a evocação da imagem bíblica correspondente, a dos discípulos em meio a tempestade. 

É demasiado Amazing (maravilhoso, sublime) a sequência de imagens bíblicas que se sucedem em tão poucas palavras. Como se não bastasse, estão estruturadas de forma familiar ao conhecedor das Escrituras Sagradas, segundo a poética tão conhecida dos salmos. Considerando que tal peça tem como seu objetivo próprio a liturgia, já se pode entender como Amazing Grace atravessou do séc. XVIII até o XXI sem perder o vigor. 

A conversão, ou a experiência sentida de transformação se revela na vida, não de forma mágica e imediata, mais nas opções que o sujeito agraciado vai experimentando e na medida em que se abre ao transcendente. 

William Wilberforce
Tal sujeito se abre ao transcendente voltando-se para o ser humano, e busca desarticular as estruturas desumanizantes de seu tempo, a mais gritante, a escravidão do seu semelhante. O Rev. John Newton foi importante de várias maneiras, mas em especial influenciando William Wilberforce, em quem deixou sua marca, o que se fez notar durante a vida deste último. 

A História de William Wilberforce ganhou um filme, Amazing Grace, propositadamente homônimo do hino do Rev. John Newton. Esse parlamentar inglês desejou ser um ministro do evangelho, mas acabou sendo um cristão atuante na sociedade de sua época, no seu cuidado para com os pobres e na sua luta vitoriosa contra a escravidão. Assim como John Newton ele não experimentou sua espiritualidade distante da vida cotidiana, mais imerso nos problemas mais profundos de sua época. 

O Filme: Jornada para Liberdade
William Wilberforce ( Ioan Gruffudd)
Podemos observar que o homem voltado apenas para as suas necessidades imediatas se coloca dentro das estruturas do mundo, mas quando tem o seu espírito iluminado pela Graça pode ver com clareza as estruturas desumanizantes e, removendo a cegueira, responder a graça divina e transformar-se a si mesmo e ao mundo.

No presente século, a espiritualidade é experimentada e entendida de outra maneira, nesse nosso contexto de pós-modernidade impera uma espiritualidade individualista, falta para nós a percepção de uma graça atuante na sociedade, modificando as estruturas que ainda escravizam o ser humano, e ser humano sem graça não é outra coisa senão um escravo desgraçado, perdido, cego, amedrontado. Adjetivos tão familiares em nosso século.


Veja o vídeo de Amazing Grace interpretado pelo cantor americano Chris Tomlin
http://livresparaser.blogspot.com.br/2012/03/amazing-grace-legendado-chris-tomlin.html


Veja o vídeo do Pr. Wintley Phipps sobre a origem da música Amazing Grace
http://livresparaser.blogspot.com.br/2012/02/ministracao-do-pr-wintley-phipps-sobre.html


Veja o vídeo Maravilhosa Graça interpretado pelo cantor e ministro de Louvor Alessandro Reis
http://livresparaser.blogspot.com.br/2012/02/maravilhosa-graca-alessandro-reis.html


Veja o vídeo da música Amazing Grace interpretada pelo fenômeno mirim Jotta A.
http://livresparaser.blogspot.com.br/2012/01/amazing-grace-na-voz-de-jotta.html

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